julho 30, 2008

Mas, antes de ir, isto.



Porque me parece que ela também sabe que este coração está avariado, não sei se para sempre mas, de certeza, há tempo demais.

Metal heart, you're not hiding.
Metal heart, you're not worth a thing.

Agora é que é.

Amanhã

Estarei novamente de férias e a Norte, muito a Norte. Levo comigo seiscentas páginas que devoro a velocidade considerável, a garrafa de gin meio cheia, camisolas para o frio, um cartão de um giga de memória, a cabeça cheia e três pessoas de quem gosto muito. Não sei se me vai apetecer voltar. Liguem a vossa televisão nestes dias e pode ser que nos encontremos por lá. Até breve.

julho 29, 2008

Sobre não conseguir esquecer

It's not me, I am pretending.
I'm not saved, he turned me down *.


Vi-o primeiro quando entregava as malas no check-in, não sei em que data nem para onde viajava. Os movimentos dele eram nervosos, como se o desconforto dos aeroportos o obrigasse a estar em constante deslocação. Vestia um fato escuro mas levava a gravata na mão que não segurava a leve mala de viagem. Imaginei-o diplomata, director, correspondente de um jornal mas a minha cabeça queria acreditar que era um toureiro. Tinha aquelas feições moldadas pela afronta, pela entrega diária ao prazer. Escrupulosamente escanhoado, o cabelo preto puxado para trás com uma noz de gel que já tinha preguiça, olhava vagarosamente para a fila que parecia nunca diminuir. Tinha aquele olhar vagamente triste e afectado, o olhar que se recusa a ser surpreendido, a viver ainda mais, uns olhos castanhos muito escuros e amendoados.

Da segunda vez que o vi, já estávamos dentro do autocarro que fazia a ligação do terminal ao avião: íamos fazer a mesma viagem, certamente com propósitos muito diferentes. Encostou-se a uma das portas enquanto desligava o telemóvel. Era um homem não muito alto, os ombros não tão largos como os do rapaz que se tinha encostado ao seu lado. Era muito moreno mas não tinha a cor de solário ou de férias - era simplesmente moreno. Em frente a ele, e muito diferente das mulheres que já amou, estava eu, que o estudava discretamente e imaginava, nesta viagem tão curta, como ele me convidava para beber um copo de vinho tinto e como falávamos sem precisar de palavras. Imaginava uma tarde de Verão numa cidade histórica e as suas mãos cuidadas desviando o cabelo do meu pescoço, enquanto me olhava com uma calma que me assustava, com a tranquilidade das certezas. Ambos teríamos um avião para apanhar e, quando nos separássemos a caminho do aeroporto, saberíamos que era aquela falta de voz que nos ligava.

Subiu rapidamente as escadas para o avião, enquanto consultava o relógio uma última vez. Eu guardei a minha bagagem e, enquanto apertava o cinto, pensei que, mesmo querendo, nunca poderia esquecer uns olhos assim.

* a render-me, finalmente, aos encantos da menina Chan.

julho 28, 2008

Síndrome do Regresso *

É precisamente uma da manhã. Não tenho um relógio com mostrador digital mas consigo sentir o tempo a não avançar, estancado neste quarto emprestado. Revolvi a cama demasiadas vezes para conseguir manter-me deitada e concentrada no sono. Sentei-me no puff preto, que nunca encontrou o seu lugar nesta casa, e deixo que o fresco da noite de Lisboa me torne menos ansiosa. Nunca sei exactamente onde me encontro quando regresso para ficar. Quanto mais penso que devo parar e esvaziar o reservatório de lembranças, mais desperta me sinto e tudo corre a maior velocidade. Conto as horas que faltam até me levantar e sei que o dia amanhã será uma tortura. Talvez não tão grande quanto esta de não saber onde estou.

*o meu auto-diagnóstico, a minha contribuição para a Ciência.

julho 27, 2008

Acabar em beleza, vol. II

Há uma quinta bem perto do coração da cidade. Juntamo-nos perto das quatro da tarde para começarmos a cozinhar e decidir o que falta comprar. Em vez das tradicionais febras grelhadas, decidimos arriscar e optamos pelas saladas frias - uma escolha muito acertada. Há cerveja dividida entre dois frigoríficos e bebidas mais fortes para os adeptos de misturas estranhas. Enquanto jantamos, ouvimos Johnny Cash, Amy Winehouse, A Naifa (quantas mais vezes vão irromper pela minha vida e afastar-me do que me rodeia, obrigar-me a concentrar nesta voz, a criar cinema na minha cabeça). Acabamos a noite com uma partida de lerpa, com direito a fichas de casino para não complicar as contas.

Arrepio-me quando penso que amanhã estou de volta à realidade. Podem não ter sido as férias que idealizei mas foram, de certeza, as mais tranquilas dos últimos tempos. Tenho quatro dias de trabalho antes das próximas férias - não vou conseguir trabalhar, é evidente. Vou antes pairar por ali.

julho 26, 2008

Acabar em beleza, vol. I

Já passava das nove e meia quando nos fizemos à estrada. São uns setenta quilómetros até atravessarmos a fronteira com Badajoz, entre estradas sem marcação e o troço da auto-estrada mesmo no final. Sabemos que estamos em Espanha porque é quase meia noite e as esplanadas dos restaurantes ainda estão cheias e há gente a atravessar a ponte sobre o Guadiana. Meio perdidos na zona comercial, cheia de lojas de roupa de cerimónia, brinquedos, de chineses, de tatuagens e tapas perguntamos o caminho até ao bar.

No bar (site aqui) encontramos toda a gente que costuma estar aqui e que veio dar força aos moços. Chamam-se Magnetic Roll Bar e mostraram aos (não muitos) espanhóis como se faz rock descomplicado, quase divertido e que faz ter vontade de dançar. Conquistaram algumas fãs espanholas, deram espectáculo em cima do balcão e acabaram completamente suados, como é costume. Ainda houve tempo para pôr a conversa em dia com amigos do outro lado da fronteira e para beber cervejas ao escandaloso preço de dois euros e meio. Espanha é realmente outra coisa.

julho 24, 2008

Lembro-me daquele dia em partilhámos o táxi até casa. Lembro-me de como, pela primeira vez, tomei a liberdade de te dizer exactamente o que me apetecia fazer e de como me obrigaste a tomar uma decisão. Tenho a cabeça a andar à roda, pensava, enquanto tentava chamar um táxi mas era muito mais que isso - era o corpo inteiro, era o mundo a querer fugir-me dos pés, era esta sensação tóxica de possibilidade. Sabia que me ias fugir, que eu ia querer que fugisses. Nunca ficas muito tempo, apenas o suficiente para me poderes marcar outra vez e desaparecer. Lembro-me da tua camisa e do gin quase tónico que preparei à pressa. Pegaste num livro da minha prateleira, num que te chamava a atenção e, às seis e tal da manhã, leste-me excertos ao acaso enquanto eu tentava perceber, cansada, se aquilo não era apenas o produto da minha persistente imaginação. É tudo demasiado rápido, contigo mas eu lembro-me em câmara lenta para preencher os espaços. Porque, na minha cabeça, cada uma é sempre a última vez.

julho 23, 2008

Update *

* ou como, desta vez, fomos estender as nossas toalhas na relva do Crato, já a tarde ia longa. Tivemos direito a um concurso de saltos para a água, piscinas com água (quase) demasiado quente, um fim de tarde ventoso mas tão agradável sem que a menina anunciasse o seu final nos altifalantes. No caminho, cheira-me a campo mas faltam-me os eucaliptos antes daquele cruzamento e vejo o progresso da nova estrada que desenham até Lisboa. Passamos pela casa onde eu gostava de morar, cercada por vinhas, com um rodapé azul do mais bonito que há - sempre achei que com um computador e alguns livros podia ser feliz nestes ermos silenciosos. Aceito os conselhos generosos e deixo de sentir saudades do futuro - este presente, com planos vagos, com sandes embrulhadas à pressa e o biquini sempre estendido à janela, é mais do que podia desejar.


T., M. e eu, por ordem de aparição.

julho 22, 2008

Queria ser omnipresente.

Passam cinquenta e três minutos das nove da manhã quando os óculos de sol me tapam as olheiras da noite de ontem. Deixei-os a todos mais cedo, antes que passassem dos planos à acção e acabássemos todos mergulhados clandestinamente num tanque qualquer. Queria saltar muros ou sentar-me num sítio qualquer sem iluminação, queria continuar a dançar os êxitos dos ABBA no bar onde já somos os últimos clientes. Mas ontem impus-me a reclusão.

Passam cinquenta e seis minutos das nove da manhã quando compro o meu bilhete de dois euros e escolho uma espreguiçadeira na minha piscina favorita de todos os tempos, com vista sobre a serra e sobre os retalhos cultivados que se estendem até onde esta névoa do calor deixa ver. Hoje o céu já não está azul, está queimado pelas temperaturas altas. E, quando passam dois minutos das dez da manhã e eu mergulho pela primeira vez, estão seguramente mais de trinta graus. O calor mistura-se com a água, que está tépida ao primeiro toque. Há tantas caras conhecidas para quem me tornei uma estranha, uma visita de passagem, aquela cuja vida não passa de um enorme ponto de interrogação. Pela primeira vez, quando passam cinquenta e dois minutos das dez da manhã, ouço a expressão de pena do dia (Ah mas vieste sozinha? Pois... Que pena não teres companhia...), como se não pudesse gostar de estar sozinha.

Passam quarenta e dois minutos das sete da tarde e penso na minha casa vazia em Lisboa. Tenho saudades da Lapa mas não estou certa de já ter vontade de voltar. Está calor, tenho os meus amigos e a minha família aqui. Só não consigo evitar pensar naquele silêncio do meu corredor - estou continuamente dividida.

Guilty pleasures

É o resultado de ter visto as primeiras duas séries em menos de uma semana. Provavelmente, é preciso crescer um bocado antes de poder sequer compreender as subtilezas que sustentam cada episódio. E, como é óbvio, não me assemelho em nada a estas mulheres de Nova Iorque: tenho menos de trinta anos, não uso Gucci nem Fendi nem Prada, não frequento os melhores restaurantes da cidade e as minhas relações não têm metade do glamour das relações delas. Mas se eu considerar só o pragmatismo da advogada, a ingenuidade da galerista, a clarividência da relações públicas e o idealismo da jornalista sou um bocadinho delas todas. Mesmo sem maquilhagem, Cosmopolitans ou trezentos pares de sapatos. Mesmo neste pedaço de Alentejo a arder.

Well, I don't know how you people do it. All that emotional chow-chow. It's exhausting.

julho 20, 2008

Post com dedicatória *

De todo o mal que me fez, o que me magoa ainda hoje é a ingratidão, a incapacidade de aceitar que o que tínhamos juntos era o mais próximo que ele ia encontrar de perfeito. Passaram dez anos e a nossa vida poderá continuar mas provavelmente nunca estarei totalmente a salvo das suas tentativas reles de me magoar. E toda a dor que ele me causou apenas me deixou uma gigantesca percepção do que é o respeito por mim mesma, do que é não sucumbir à maior rede de mentiras que alguma vez me contaram, de procurar alguém verdadeiramente à minha altura. Deixá-lo foi a mais difícil e mais acertada decisão de toda a minha vida, foi acordar para um mundo em que eu era realmente uma pessoa, foi crescer e ver que a vida não precisa ser só um emaranhado de noites inquietas e dias confusos, em que nunca se sabe bem em quem confiar.

Por isso, se me perguntarem um dia qual foi o melhor momento da minha vida, eu vou responder que foi o dia em que te deixei, o dia em que encheste a minha caixa de mensagens com todos os insultos que pudeste inventar, o dia em que me perdeste para alguém incomparável e infinitamente melhor. Nada do que me possas dizer hoje ou amanhã me irá abalar porque, tanto eu como tu, sabemos que a tua vida é o castigo por tudo o que deitaste fora.

Apenas desejo não mais me cruzar com ele. Para que da minha boca não saia mais do que quero dizer.

*para mim, que um dia consegui perceber que se fazia tarde. Para mim, por ter perdido sete anos da minha vida a gostar de alguém. Para mim, no dia em que decidi que, de onde esta dor veio, não virá mais nada. Nunca mais.

julho 17, 2008

A felicidade na minha caixa de correio

Ich befinde mich im Urlaub vom 14.07 bis einschließlich 25.07. Falls nötig bitte wenden Sie sich an xxx oder yyy in diesem Zeitraum. Danke!

julho 16, 2008

Estado em que se encontra este blog

A banhos.

Balançando entre o amarelo das searas, o inigualável azul do céu e os aviões sem rasto da cidade natal e o rebuliço, as noites silenciosas e as travessias da ponte da cidade adoptiva. Entre ambas, apenas há espaço para os lanches diários nas avós, para a música que se ouve em cima de uma cadeira de massagem e para a gastronomia que senta bons amigos à mesma mesa. Tudo o resto se resume a água transparente e pele morena. Tempo para pensar, sim - mas só em coisas realmente boas.

julho 13, 2008

About yesterday (and the day before and the day before that)

Podia só dizer que foi o mais perfeito começo de férias.

(houve tempo para experimentar um festival novo, desta vez em Oeiras. O recinto é demasiado comprido para que se possa alternar confortavelmente entre os dois palcos, as casas de banhos deixaram de ser unisexo, o som da música de dança a meio do recinto prejudica o som nos palcos maiores. Mas houve The National (outra vez) que, não comparando com a Aula Magna, me fizeram fechar os olhos durante breves segundos só para sentir aquilo tudo como deve ser. E houve o regresso à minha adolescência a ouvir os Rage Against The Machine e a descoberta que ainda me apetece muito saltar ao som daquela música.)

(jantar marcado para as nove, algures em Algés. O restaurante tem a porta fechada, é obrigatório tocar à campainha para que nos façam entrar numa espécie de dimensão diferente. É como se fosse uma casa de família, as mesas impecavelmente postas, os pratos elegantemente desirmanados. Os empregados eram delicados como a etiqueta exige, a meia luz esbatia os contornos dos rostos aristocráticos que se sentavam nas outras mesas. Cinco variedades de fondue, tinto alentejano macio e uma salinha só para nós.)

(sardinhas em Setúbal e quase duas horas esperando o ferry. Fazer outra vez aquela estrada trouxe-me boas recordações - as voltas que demos em Tróia, as praias a que tentámos ir, a noite em que dormimos quase à beira mar. Acabámos na Comporta, a praia longe de estar cheia, o vento que não nos deixava estender a toalha. No topo das ondas que revolviam a areia, senti-me a controlar a minha vida e soube que o meu desejo havia de se tornar realidade.)

julho 09, 2008

I've got a thing for you

Não devia ter pegado no livro que (supostamente) disseca os signos e os seus ascendentes. Sempre que leio, sou absorvida pela quantidade absurda de generalidades e revejo-me em grande parte das coisas que eles dizem que eu sou. Mas não é que eu acredite em horóscopos nem em previsões ou cartas astrais - quando os leio, é apenas para me rir (e secretamente tentar alinhar o que me acontece com aquilo que está previsto...).

Li várias vezes a parte em que eram descritos os amores das mulheres deste signo. Não foi com surpresa que li que são uma coisa quase doentia, um sentimento amarrado a pormenores, capaz de explodir a qualquer instante. Não me admirou que se falasse em lealdade cega e instinto protector quase selvagem. Se os signos têm algum fundo de verdade, esta minha impulsividade, esta incapacidade de conter as palavras e a insistência em reservar os pensamentos são a prova de que precisava. Só não li em lado nenhum que a nativa deste signo prefere esperar por um grande Amor em vez de se entreter com menoridades do género, que procura alguém que a domine com um só olhar ou uma palavra de ternura. Não encontrei referência às vezes que se engana a amar, às paixonetas que confunde com o amor, às aventuras que tenta fazer passar por começos de alguma coisa. Nem sequer li em parágrafo algum que (algum)as mulheres deste signo desejam apenas uma reciprocidade tão perfeita que se perdem em jogos de cintura inúteis, em desejos satisfeitos, em concessões desnecessárias.

E também foi omitido o profundo terror que sentem quando, nos longos momentos que passam a pensar antes de adormecer, sentem que tudo o que desejam não se vai repetir ou estar à altura daquilo que esperam. Mas, em conversa com uma velha amiga e ouvindo as palavras que eu mesma escolhi, percebi que a esperança secreta nessa outra pessoa torna a vida mais suportável, a espera menos dolorosa. É que o meu ascendente promete-me grandes conquistas e eu, desconfiando, acredito.

(e agora uma breve pausa publicitária)

A empresa onde trabalho está à procura de pessoas que queiram juntar-se a nós. Não importa se só vos apetece trabalhar no Verão ou se querem mesmo começar a trabalhar a sério, todos são considerados. Portanto, se conhecem alguém com vontade de arregaçar as mangas, o meu contacto está no perfil. Não se prometem ordenados chorudos nem regalias imediatas mas há por lá gente boa e trabalho que chegue.

(de volta à emissão normal)

julho 07, 2008

À flor da pele pt. II *


Encostado à parede, perde-se em antecipações. Já bebeu qualquer coisa forte para conseguir lidar com a pressão de ser apenas um homem. Parece meio desorientado no meio daquelas cadeiras vazias, no meio do silêncio artificial da sala. Revejo esta cena durante alguns minutos, quero decorar o ritmo com as suas pestanas descem sobre os olhos, quero poder dizer-lhe que sei como é. As luzes, a ansiedade dos olhos que pousam sobre ele, o suor que se ouve cair na sala tornam a sua voz mais triste e os seus desejos mais escuros. Puxa o microfone até à altura do coração e grita tudo o que pode. Posso sentir a intensidade mesmo em silêncio, mesmo sem cor, sem saber o que está a cantar. Um dia perguntaram-me o que tem isto de especial. Acho que não sei dizer mas sei exactamente do que se trata.

Tonight you just close your eyes/and I just watch you/slip away

*agora em versão puramente emocional. Este still é do documentário A Skin, a night, realizado por Vincent Moon e que nos mostra outros lados B dos The National.

Som! Experiência! 1, 2!

Abre-se neste momento um novo capítulo na história deste blog e com ele a possibilidade de participação dos amigos. A partir de hoje, a Jane do Às vezes apetece, o Vodka e Valium 10 do Fantástica Gramática Automática, o Cosmonauta do Terra de Ninguém e o Ricardo do 2H têm também voz aqui. A ideia, de acordo do o mentor desta troca, é simples: se convidamos os nossos amigos para nossa casa, porque não os convidamos para outros sítios onde nos sentimos bem?

Mais desenvolvimentos nos próximos tempos. Eu cá já abri as hostilidades, só é preciso descobrir onde...

julho 06, 2008

Portalegre, 21h37m

Penso nos quilómetros que já fiz em toda a minha vida, constantemente a alternar entre a minha casa e o sítio onde escolhi viver. Todas as horas que passei dentro do carro são para chegar aqui, para sair do carro e ver anoitecer uma noite de Julho gelada, para absorver a escala de cores com que se pinta o teu céu. És a minha casa mas, corajosa, empurras a minha vida para longe. Promete-me que um dia poderei regressar.

julho 05, 2008

Sobre técnicas de relaxamento

Neste últimos tempos, o descanso tem sido pouco ou, pelo menos, pouco proveitoso. Há demasiadas horas extra a serem feitas desde há duas semanas (e para continuar), há este calor que, mesmo em Lisboa, me obriga a ligar a ventoinha assim que chego a casa. Por isso, não é de admirar que o fim de semana se divida só em três actividades: uma cervejinha com os amigos, piscina logo pela manhã e sesta a atravessar a tarde.

Junta-se os planos para esta última semana antes das férias (Alive!, jantar fondue, dançar loucamente ao som de Discotexas, apanhar amigos de quem morremos de saudades no aeroporto); os momentos de silêncio deitada numa espreguiçadeira na piscina, olhando os aviões que hoje não deixam rasto no céu, repetindo momentos bons em loop; e as horas de sono que se foram perdendo durante a semana. A continuar a este ritmo, vai ser um Verão do caraças.

julho 02, 2008

Não quero o amor/O que me entusiasma é a boa imitação.

Sentados numa esplanada do largo do Carmo. Digo-lhe que trouxe o mau tempo de longe, ele gosta do tempo assim. Cumprimenta alguém conhecido, desvia o olhar constantemente como se estudasse as pessoas que passam nas minhas costas. Subo as escadas rolantes com um passo hesitante e quebrado, um nervoso muito maior do que o meu corpo aguenta e ele ali está, de olhos semi-cerrados à minha espera. Ele à minha espera. Já não sou eu deitada no escuro a contar os minutos que já passaram, é ele sentado ali. O meu coração não sossega, sinto-me suar. Não tiro o óculos de Sol enquanto estamos juntos. Decoro-lhe os pormenores da cara, os olhos escuros, os cabelos brancos em operação de charme. Se quiser responder com honestidade à pergunta O que faço eu aqui? não posso. E, enquanto viramos costas numa esquina da rua Garrett, só me consigo lembrar de dois versos*. Disso e do dia em que me disse com aquela calma Deixa ficar o colar, deixa-o ficar...

* as palavras de m.r.t. musicadas pel'A Naifa. Outra vez.

julho 01, 2008

Dancing queen

Estou na cozinha e, quanto avanço para o corredor, as pernas fogem-me e marcam o ritmo à vez. Esqueço-me que há televisão, esqueço-me que o jantar ainda não ficou feito e danço. De manhã, atravesso o jardim da Estrela sem conseguir disfarçar o movimento dos ombros, que à entrada deixaram de me obedecer. Se olharem bem para mim, reparam no meu andar estranho, tentando submeter as ancas ao passo normal. Nas escadas rolantes da estação de metro, seguro-me para não criar uma coreografia ao som da música. Temo que a qualquer momento perca o controlo e dance ali mesmo, de olhos fechados.

A culpa é dele. Chamam-lhe Xinobi e podem ouvi-lo aqui.