janeiro 30, 2010


Hoje é Sábado e eu, depois de ter os últimos dois dias livres, fui trabalhar. Continuo a comportar-me como uma ursa e a tentar preencher os horários vazios, as pessoas que não vêm, só porque me está no sangue. Foi um dia muito escuro e cinzento e do alto daquele sexto piso eu só esperava as primeiras pingas. Depois, quando vinha para casa, reparei da rotunda do Marquês e parece que há papoilas semeadas num dos canteiros. Está frio e eu tenho estado sozinha. Três ou quatro papoilas que sobrevivem à poluição são o suficiente para sorrir (pateta) no autocarro. E também existe a voz do Mark Kozelek a cantar sem pressa. Quem me dera perceber o que estou realmente a fazer.

janeiro 28, 2010

Estrela, 15h49, 11 °C


Eu sou perita em procrastinar. Hoje, a desculpa foi que não estava preparada para começar a escrever, que estava Sol e era um desperdício ficar em casa e afinal até os prazos foram esticados mesmo à medida. Na realidade, não estava preparada para escrever, sinto-me assim desde as dez da manhã e não sei muito bem como contornar esta falta de inspiração. À tarde, resolvi apanhar Sol e comprar algumas gulodices mas a saída não teve os resultados que esperava porque não havia aqueles crepes de chocolate maravilhosos do PD. Queria ter tudo pronto amanhã mas só se acontecesse um milagre e o resto do trabalho me aparecesse aqui feito durante a noite (há alguma fadinha para isto?). Cada vez mais me convenço que preciso arranjar uma profissão liberal ou ser patroa de mim mesma: deixar o Nico à solta durante a manhã, ouvir a minha rua durante o dia, sair para as compras depois do almoço - que sensação de tranquilidade.

Zero


Depois da parafernália de fios e eléctrodos colados à minha cabeça, depois de dormir com um gravador debaixo da almofada e sair do consultório a parecer um bicho, depois de andar a tentar arrancar os restos do exame do cabelo durante mais de uma semana, descobri há dois dias que, neurologicamente falando, não tenho nada. Sim, tenho um sono agitado e frequentemente interrompido e as minhas pernas mexem-se muito e revolvo a cama toda e levanto-me umas três a quatro vezes por noite mas o meu cérebro está a funcionar bem. Sabem aquele episódio do doente que sai do consultório do médico chateado porque não tem nada? Eu agora percebo melhor. E lá se vai a minha esperança de voltar a dormir uma noite inteira, voltei à estaca zero.

janeiro 25, 2010

Uma experiência (quase) maternal

Mesmo correndo o risco de ser mal entendida pelas mamãs aí fora, eu vou dizer.

Ter animais de estimação é quase como ter filhos.

Ora, primeiro é um que me muda de sexo dentro do aquário, assim mesmo, sem mais nem menos. Num dia chama-se Gustavo, no outro dia está grávido e a fazer a desova como se não existisse amanhã. Acho que ainda tem mais filhotes para dar à luz, parece-me um bocadinho gordo mas eu já não sei o que fazer. Os outros meninos dentro do aquário metem-se com ele, ele foge, fica agitado e lá vêm mais uns bebés por aí fora. Não me apetecia encher o aquário com mais umas centenas de peixes mas enfim, eu sei lá o que fazer com aquilo tudo.

Depois é o outro menino, o de quatro patas. Ontem mandou-se dum banco abaixo, levando consigo a caixa cheia de água, ração, palha e xixi. Parecia um croquete, todo coberto pelos restos da comida e a palha já desfeita. Ainda pensei em metê-lo no banho mas achei que talvez fosse melhor deixar a natureza seguir o seu curso e deixar o bicho lavar-se sozinho.

Hoje lá fui à loja aqui da rua para me abastecer de coisas para os meninos: a ração, a palha e os flocos e o senhor ainda me explica que as bolinhas de madeira são melhores, absorvem os líquidos e promete-me menos limpezas durante a semana. Lá vim eu rua abaixo, com as mercearias para a semana, carregada com o material para estes quatro meninos do meu coração para depois perder uma hora e meia a deixar tudo a brilhar. Se isto é assim com a bicharada, então quando falarmos de crianças... ui! Tenho que começar a lançar o charme e valer-me dos avós :)

janeiro 22, 2010

Última tarde de férias


Estou a esforçar-me por passar a última tarde das férias na Biblioteca Municipal da minha cidade. E digo esforçar não porque aqui faltem condições, ou porque seja um espaço desconfortável mas porque as próprias funcionárias ignoram (ou parecem ter esquecido) que este é o lugar do silêncio e de um certo recolhimento. Daí até perguntarem, gritando, quantas horas deve carregar um telemóvel novo ou rirem-se espalhafatosamente duma piada contada ao almoço é um pequeno salto.

Mas enfim, incidentes à parte, estou verdadeiramente feliz por ter regressado à faculdade três anos apenas depois de ter terminado o meu curso, um percurso demasiado acidentado para me orgulhar disso. Mas agora que encontrei algo que quero mesmo fazer, um objecto de estudo que me interessa, que me estimula, as coisas sabem-me muito melhor. Mesmo que não esteja a contribuir para nenhuns avanços médicos ou tecnológicos, mas apenas a contribuir para aumentar um corpo de conhecimento ainda incipiente. E agora (algum) silêncio que se vai investigar um pouco.

janeiro 21, 2010

Always already gone

Não sei como é que acontece. Faço a viagem de volta a casa e o coração começa-me a ficar cada vez mais apertado dentro do peito, a respiração cada vez mais custosa. E é quando chego a Montemor-o-Novo e me enfio pelas ruas de paralelos para tentar fugir aos semáforos e aos camiões e de repente dou de caras com um funeral acabado do sair da capela e não consigo aguentar mais os soluços que vêm sabe-se lá de onde e só a custo os travo à pressa. Depois há aqueles altares na berma da estrada, símbolos macabros de alguém que perdeu a vida naquela curva e, em chegando a casa, ligo a televisão e continua a saga do Haiti e começo a chorar à mesa com a minha mãe.

Estar longe de casa tem-me mantido na linha: acumulo o stress das aulas com a falta de entusiasmo e motivação no trabalho, o trânsito no cruzamento da Estrela, os autocarros cheios de gente e de humidade, as calçadas escorregadias onde hei-de cair, mais cedo ou mais tarde, os carros mal estacionados à porta de casa, a televisão velha do vizinho que não cabe nas escadas, as compras que não fiz por esquecimento. Vale tudo para não me lembrar da tristeza de já não os ter por cá, de saber que com eles morreram velhos hábitos e se calaram anedotas, de saber que agora só os confundo com outros velhos que caminham no jardim. E vale tudo para me esquecer a miséria desse povo abandonado, as crianças de olhos arregalados com o medo, a falta de coordenação. Mas, no momento em que vacilo, lembro-me do conselho que ando a repetir há duas semanas à minha avó e respiro fundo. Lembremo-nos de quem fica.

janeiro 20, 2010

Acordar com o coração nas mãos



Ou, pelo menos, com o coração a querer romper o peito. Se calhar é porque hoje está Sol pela primeira vez desde... Não sei desde quando porque me perdi na sucessão de dias cinzentos, por dentro e por fora. E quanto mais tempo passa, mais eu redefino o meu conceito de saudade, que se agudiza e se transforma nesta muralha que julgo ser intransponível alguns dias e inexistente noutros. Estou de férias mas passo doze horas em frente ao computador e mal sinto o ar fresco lá fora. E depois é isto, sentir-me só em vez de me sentir apenas sozinha e os abraços que ficam por dar.

janeiro 17, 2010

La Femme d'Argent


Acho que a última música da noite, a mesma que dá título a este post, resume o sentimento que me ficou do concerto: épico! Podia ter sido melhor, se a música estivesse um nadinha mais alta e eles se aventurassem mais nestas cavalgadas electrónicas. Tocaram a minha música preferida e só por isso já valeu a pena. Já nem falo da companhia perfeita e da melhor irmã do Mundo, que fez o favor de nos mandar ao Coliseu. Podia-se era ter evitado a multa de estacionamento no Largo da Anunciada mas enfim, quase que se esquecia: saímos nas nuvens.

janeiro 16, 2010

(500) days of Summer


Tom: I love how she makes me feel, like anything's possible, or like life is worth it.

Se eu tivesse visto este há filmes há um ano atrás, teria certamente sido uma noite daquelas: acabaria de ver o filme e, depois de lamentar estar sozinha, enfiava-me debaixo dos cobertores e ficava indecisa entre chorar ou ser mais forte que isso. Mas a verdade é que este filme está cheio destas verdades e desencantos de que também é feito o amor. A reciprocidade é uma cabra e às vezes penso nas probabilidades de encontrarmos uma pessoa que queira exactamente o mesmo que nós, também exactamente no mesmo espaço de tempo. E bem, se não fosse eu ter sido agraciada com essa possibilidade, é de loucos. Mas eu acredito em tudo que vi neste filme: as noites psicóticas sem certezas, as indefinições dos primeiros tempos, a vontade de abraçarmos uma pessoa controlada pelo nosso medo de nos magoarmos. E acredito na música e em sítios especiais, em alinhamentos de planetas, nos defeitos que se adoram, no apesar de tudo. E até pode ser coisa de filme mas quem é que nos disse que uma tarde chuvosa não estamos no Vertigo a ler o resto dum McCarthy qualquer e não passa pela montra a pessoa da nossa vida? Acreditar é a única coisa que nos mantém vivos. Até que ela finalmente chega e acaba-se a ansiedade toda. Toda.

janeiro 12, 2010

Neuro-coisas

Depois de dormir mal durante demasiados meses, resolvi fazer qualquer coisa por mim e aproveitar que o trabalho ainda me facilita no seguro de saúde. Comecei a achar que levantar-me umas três ou quatro vezes numa noite de sono de sete horas já se estava a tornar demasiado cansativo. Primeiro, achava que era apenas uma fase mas, depois de sentir as coisas arrastarem-se para lá do suportável, decidi que preciso voltar a dormir uma noite completa.

Só me arrependi um pouco quando saí da sala onde me ligaram todos os eléctrodos e cabos ao gravador que vai registar o sono e a minha irmã foi incapaz de conter as gargalhadas sonoras dela. E também entendi a insistência das senhoras, quando me diziam que, depois de colocar todo o material, não poderia conduzir ou andar de transportes públicos: acho que muita gente iria desmaiar de susto! Já estou a preparar-me para ligar os fiozinhos todos debaixo da almofada e estar descansada às onze da noite, hora em que os aparelhómetros começam a funcionar. Não sei como é que esperam que eu durma com estes adesivos todos e aquele aparelho para medir o que não ressono. De dormir não sei nada - só quero arrancar isto tudo quando chegarem as primeiras horas do dia...

janeiro 10, 2010

1924

Sabes avô, vinha no caminho já a pensar como gostava te dizer tudo o que se passa no Mundo e que tu não podes saber. Já em Abril, tinha vontade de mostrar a cidade mais uma vez ao outro avô, mesmo estando tudo na mesma, mesmo a vista sendo sempre igual. Não vim a tempo, avô. E tu também já não foste a tempo de ver que, depois do gelo que sentimos durante estes dois dias, começou a nevar tão cedo e quase fico contente, porque em vez de chuva, ficas agora debaixo desta mantinha branca.

Sabes avô, o meu pai disse que o 2009 ainda não tinha acabado e que só agora se fechava o ciclo e eu quero acreditar nele. Vamos ter saudades tuas mas o que tu tinhas agora já não se chamava vida e feria-nos tanto não te poder ajudar. Falei contigo em pensamento porque tenho a esperança secreta que, algures, ainda nos possas ouvir. Já não sei dizer se isto foi tudo de repente ou de demorou tempo demais mas sei dizer que isto foi a repetição exacta dum pesadelo que já tínhamos vivido há nove meses: as mesmas pessoas à volta da mesa, o mesmo bacalhau ao almoço, os mesmos acordares para um dia que desejávamos não existir. Só está é tanto frio, avô e é como se a neve estivesse cá para marcar o dia - como se pudéssemos esquecer.

Vou ter saudades tuas, avô e não quero aqui falar das coisas tão boas de que me lembro porque o mais certo é regressarem as lágrimas. E se me contenho, e se agora me acalmo, é porque desde há nove meses atrás que acredito que vocês se escondem num sítio secreto, onde vão ficar para sempre, esperando também por nós.

janeiro 07, 2010

Del todo nos vamos y desaparecemos en su casa

 

Tantas vezes preciso de música para escrever. Confesso que muitas, muitas vezes não teria escrito sem a ajuda da música e isto sabe a batota, como se estivesse a roubar a inspiração de alguém. Mas também sabe um pouco a sinestesia e a esta afinidade da música com as palavras, com a emoções, com os cenários que se vão desenhando na nossa cabeça. E preciso de música para perdoar, para me convencer de que não devo deixar o sangue quente reinar sobre mim, para compreender minúscula importância da minha vida. E preciso de música para viajar, mesmo sentada numa cadeira de escritório, e para silenciosamente exaltar este meu bem querer e troçar dos fantasmas dos tempos já idos. E se tiver música posso reinventar-me e multiplicar as minhas declarações de amor.

E posso ser uma mulher descalça em pleno deserto, um xaile apenas pelos ombros descobertos, com um brilho que nem o pó consegue cobrir, suando os meus amores impossíveis e começando a ceder à vertigem voluntariamente. Choram guitarras e baila-se à vez. Acho que se chama a isto ser livre.

[chego muitas vezes tarde, já o disse antes, mas o que conta é chegar lá. E tu já foste mas deixaste tantos mundos cá em baixo.]

janeiro 06, 2010

I'm so disappointed I could cry

Como sempre, as pessoas continuam a fazer das suas. Insistem em segredar e em especular em vez de perguntar directamente, preferem ser medíocres do que brilhar e isso é uma coisa que não consigo aceitar em ninguém. Tenho uma bateria de análises marcadas para a semana que vem e nem conduzir vou poder. Voltei a correr, depois de uns dois meses de pausas forçadas pelas ausências e pela metereologia e agora é como se tivesse que começar tudo de novo. Respondo esporadicamente a anúncios de emprego só para não receber respostas e acabar com o que resta da minha auto-estima. Ainda não me consegui organizar para ter os trabalhos do mestrado prontos a tempo.

Comprei duas tabletes de chocolate, pelo sim pelo não.

janeiro 03, 2010

2010


 A partir de fotos dele, uma montagem minha.

Quero dançar muito em 2010. Quero poder fechar os olhos e esquecer-me das dores, das incertezas, dos despedimentos e  das ausências. Não me importo que esteja sozinha numa sala nem que me estejam a observar ou que cheire demasiado a tabaco. Quero poder dançar a dois, bem coladinha, com ou sem música romântica. Quero deixar de sentir os pés, que as pernas se movam em piloto automático, dançar com os braços e o corpo todo, soltar o cabelo e os maus olhados porque tenho a certeza que me lançaram um olho gordo. Quero mexer-me dentro e fora de tempo, batendo o pé, marcando o ritmo, fazendo a vontade às ancas e cedendo à cintura. Quero ter razões para dançar e fazer finalmente da rua Viriato a minha pista de dança.