setembro 09, 2007

Efeméride(s)

Não sei exactamente em que dia mas faz agora dez anos que me mudei para Lisboa. Há dez anos, ainda com dezassete anos muito tenros e impacientes, os meus pais deixavam-me sozinha naquelas águas furtadas da rua Sabino de Sousa, no Alto do Pina. Lembro-me perfeitamente da minha mãe a descer as escadas de madeira, esforçando-se para resistir às lágrimas. Conseguiu mas só até virar-se para trás, no primeiro lanço de escadas, e olhar para mim. Lembro-me de não saber o que fazer com tanto tempo livre nas mãos, com tanta liberdade, com aquela sensação de poder tudo.

Deixava um amor antigo em Portalegre, uma história que não viria a resistir ao desgaste imposto pela distância e ao facto de Lisboa me ter aberto os horizontes. Pode ser um lugar comum, é um lugar comum mas estar aqui fez-me perceber que eu podia mudar tudo, não tinha que ser escrava de alguma coisa pré-destinada. A noite que antecedeu o primeiro dia de aulas foi passada na nossa varanda, com a vista para Lisboa toda, com vista para o Tejo muito ao fundo - naquela casa, ganhei um amigo que me foi amparando pela vida fora e que me aturava as neuras como ninguém. Lembro-me de como fazíamos planos antes de virmos e do dia em que soube que tinha entrado para onde queria: uma garrafa de champanhe morno e já sem gás à porta do CAE de Portalegre, as pressas para tratar dos papéis, a alegria que (por já saber que entrava) não era bem alegria.

Já morei em vários bairros de Lisboa mas não me parece que haja amor como o primeiro. Gostava de ir ao café e encontrar as vizinhas em pijama, ver passar os desgraçados que faziam a vida na Curraleira, fazer compras nas mercearias pequenas. Nunca me hei-de esquecer da ingenuidade com que uma vez pedi ao senhor para me vender meio quilo de batata e de ele me trazer duas batatas na mão. Depois passei pelo largo do Leão, pela estrada de Benfica, pela Penha de França e por Telheiras. Até chegar aqui, a casa. E apesar de não ter sido o primeiro amor, esta rua entre Campo de Ourique e a Lapa conquistou-me facilmente.

Há dez anos atrás, Lisboa era o símbolo da minha independência e das infinitas possibilidades. Hoje ainda é mas, depois de já ter vivido em Berlim, percebi que me adapto facilmente e que o futuro pode ser num sítio qualquer. Mas ninguém me tira este amor cego pelo eléctrico 28, pela vista maravilhosa do miradouro de Santa Luzia, pelo nascer do dia no alto do Parque Eduardo VII, pelas ruas sujas e apinhadas de gente do Bairro Alto. Não sei se daqui a uns anos me considerarei lisboeta, parece-me que não. Mas, e se pensar que esta relação de amor-ódio já dura há dez anos, o mínimo que direi é que ela me deu tudo para mudar. E eu continuo a amá-la mas como alguém que veio de fora. É que dez anos já é uma vida.

6 comentários:

Cromossoma X disse...

olá! tão lindo este teu texto :)
É estranho como nos vamos amarrando assim a sítios sem querer...

|b| disse...

"home is where your heart is"

Tiago disse...

Bem, eu nasci cá mas... nada como Setúbal. Detesto morar em Lisboa. Adorei o primeiro bairro onde nasci e vivi mas, apesar do sitio onde moro ser calmo, detesto a agitação de Lisboa, o stress dos transportes públicos, haver tanta gente, ninguém dizer bom dia a ninguém, olhar-se de lado para todos com medo que seja algum maluco. Gosto de Lisboa como cidade para se visitar,não para morar. Nada como aquela cidadezinha pequenina que é setúbal, com apenas um centro comercial grande (e mesmo assim...), onde em meia hora estamos no oposto da cidade (a pé).

Madeline disse...

Em meia hora estás no oposto da cidade?
LOL Nem em 1950, quanto mais agora.

Sofia Quintela disse...

Bonito o que escreveste... eu também amo Lisboa, mas eu nasci cá, e só sei ser Lisboeta!!

Mir disse...

Lisboa é linda, mas acho que o truque para nos apaixonarmos por ela passa mesmo muito pelo 28...

(eu já deixei de fazer contas há quantos anos cá estou, mas depois de ler este texto talvez ganhe coragem para pensar nisso!)